
Fundação de Bagdá (762): a Cidade Redonda de al-Mansur
Como al-Mansur fundou Bagdá em 762: plano da Cidade Redonda, quatro portas, construção, expansão urbana, fontes históricas e mitos.
Essa distinção resolve aparentes contradições. Bagdá pode ter sido “fundada” em 762 embora o topônimo e um assentamento fossem anteriores. O círculo pode ser essencial à história da capital embora a maior parte da população tenha passado a viver fora dele. E os historiadores podem discutir o plano em detalhe mesmo sem edifícios visíveis do recinto de al-Mansur: o traçado é reconstruído sobretudo a partir de textos medievais, não de ruas escavadas.
A fundação de Bagdá em resumo
| Pergunta | Resposta baseada em evidências |
|---|---|
| Quem fundou Bagdá? | Abu Ja‘far al-Mansur, segundo califa abássida, que governou de 754 a 775. |
| Quando? | As obras começaram em 145 AH / 762; o complexo principal foi erguido em etapas nos anos seguintes, convencionalmente resumidos como 762–766. |
| Onde? | Na margem ocidental do Tigre, no centro do Iraque, perto de cursos d’água que conectavam os sistemas do Tigre e do Eufrates. |
| Qual era o nome? | Madinat al-Salam era o nome oficial. Bagdá, um nome local mais antigo, tornou-se a denominação comum e duradoura. |
| Toda Bagdá era redonda? | Não. O círculo era o núcleo califal e administrativo; a cidade habitada cresceu rapidamente além dele. |
| O que sobreviveu? | Não há estruturas acima do solo identificadas com segurança como a Cidade Redonda. Seu plano é uma reconstrução crítica de fontes escritas. |
O que havia em Bagdá antes de 762?
Chamar al-Mansur de fundador não significa que ele tenha escolhido um deserto vazio. Fontes preservam o nome Bagdá antes do projeto abássida, e uma síntese da Encyclopaedia Iranica menciona um mercado frequentado por mercadores antes da construção da capital. A etimologia exata de “Bagdá” é discutida; traduções muito seguras do topônimo exigem cautela. O tamanho da transformação, porém, é claro: al-Mansur não inventou o nome, mas converteu o lugar na sede de um império.
A distinção entre uma localidade anterior e uma fundação imperial planejada é comum na história urbana. “Fundada em 762” significa o início da capital abássida e de seu complexo administrativo monumental, não o primeiro uso humano ou econômico do local.
Por que al-Mansur escolheu esse local?
Os abássidas derrubaram os omíadas em 750 com apoio decisivo do Coração e do Iraque. Damasco continuava associada à dinastia anterior. Uma capital construída de propósito permitia ao novo regime organizar o acesso à corte, a segurança e a administração segundo suas próprias necessidades. Também instalava o califa na antiga paisagem imperial mesopotâmica, perto da região da capital sassânida Ctesifonte, sem simplesmente ocupar um centro omíada.
A geografia importava tanto quanto o simbolismo. Al-Ya‘qubi elogiou o local porque mercadorias e provisões podiam chegar por terra e por água de muitas direções. O Tigre conduzia ao golfo Pérsico; canais e rios ligavam distritos agrícolas ao Eufrates; estradas seguiam para o Irã e a Ásia Central, a Mesopotâmia setentrional, a Síria e a Arábia. Uma corte de funcionários, soldados, artesãos e dependentes precisava diariamente de grãos, animais, combustível e materiais. O abastecimento e a comunicação foram razões práticas fundamentais.
Havia ainda a questão do controle. Os primeiros anos de al-Mansur foram marcados por rebeliões e disputas dinásticas. Uma cidade de corte protegida dava distância em relação a grupos estabelecidos em Kufa, sem afastar o governo das redes produtivas iraquianas. A escolha reuniu política dinástica, segurança, transporte, tributação, alimentos e representação imperial.
Astrólogos escolheram o dia da fundação?
As fontes associam os astrólogos Nawbakht e Masha’allah à escolha de um momento auspicioso, geralmente convertido em 30 de julho de 762. A astrologia integrava o conhecimento cortesão do período, portanto o relato não é implausível. Seu alcance, porém, deve ser definido: a eleição astrológica pode explicar o momento cerimonial do início, mas não a escolha do Iraque, a organização do trabalho ou a expansão urbana.
Conversões do calendário islâmico lunar, variantes manuscritas e cálculos modernos nem sempre coincidem no dia exato. Para uma história geral, 145 AH / 762 é a referência segura. Uma hora precisa precisa ser atribuída a uma reconstrução específica, não tratada como registro de obra contemporâneo.
Como era o plano da Cidade Redonda?
Descrições medievais apresentam Madinat al-Salam como um enorme recinto circular — ou fortemente arredondado — protegido por fosso e sucessivas barreiras defensivas. A palavra mudawwara, usada por al-Ya‘qubi, costuma ser entendida como “circular”, embora os estudiosos discutam a precisão geométrica. Estimativas publicadas frequentemente apontam diâmetro de cerca de 2,5 quilômetros, mas o valor depende da conversão do côvado e da cifra textual adotada. Trata-se de aproximação, não medição topográfica preservada.
Quatro complexos monumentais de portas davam acesso ao recinto. Deles partiam avenidas largas, cobertas ou ladeadas por arcadas; aberturas iluminavam trechos descritos como cobertos por tijolos cozidos. Entre anéis defensivos e espaços de circulação ficavam residências e serviços de cortesãos, comandantes e grupos ligados ao regime. No centro havia uma área controlada com o palácio do califa — frequentemente chamado de Palácio da Porta Dourada — e a mesquita congregacional.
O plano tornava visível a hierarquia: quem vinha pelas estradas imperiais atravessava defesas sucessivas até chegar ao centro do califa e da mesquita. Um diagrama, no entanto, não mapeia toda a vida cotidiana. Autores medievais registraram portas, palácios e cerimônias mais facilmente do que esgotos, cozinhas, oficinas, construções temporárias e casas de trabalhadores.
As quatro portas e as regiões para as quais se voltavam
| Porta | Quadrante aproximado | Rota e significado |
|---|---|---|
| Bab al-Kufa | Sudoeste | Voltava-se para Kufa, cidade-guarnição iraquiana e importante centro político-religioso. |
| Bab al-Basra | Sudeste | Apontava para Basra, o sul do Iraque e as redes comerciais do golfo. |
| Bab al-Sham | Noroeste | Conduzia a al-Sham, ou Grande Síria, região da antiga capital omíada. |
| Bab Khurasan | Nordeste | Voltava-se para o Coração, cujas tropas e redes foram decisivas na Revolução Abássida. |
Os nomes tinham sentido geográfico e político: colocavam a nova corte no encontro das grandes direções imperiais. Não provam orientação de bússola absolutamente perfeita nem que todos os viajantes de uma região usassem apenas a porta correspondente.
Quem construiu a cidade e com quais materiais?
Crônicas posteriores descrevem a mobilização maciça de arquitetos, agrimensores, artesãos e trabalhadores de várias partes do califado. Os totais e custos divergem e não podem ser auditados, mas a conclusão básica é sólida: uma cidade cortesã fortificada desse porte exigia compras centralizadas e grande força de trabalho especializada. Palácio, mesquita, portas, muralhas, estradas, água e moradias formavam um conjunto coordenado de projetos.
O Iraque central favorecia a construção em tijolos. Tijolos de barro eram acessíveis, mas exigiam manutenção; os cozidos eram mais duráveis e caros e tinham uso seletivo. Madeira, juncos, gesso e materiais transportados ou reutilizados também integravam a economia construtiva. Esse contexto ajuda a explicar tanto a rapidez das grandes obras como sua baixa preservação sob uma cidade continuamente habitada.
Por que a Cidade Redonda não permaneceu toda a cidade?
Madinat al-Salam começou como recinto palaciano, administrativo e residencial de elite. Uma capital bem-sucedida atraiu mais gente e atividades do que esse centro controlado comportava. Al-Mansur transferiu os mercados para Karkh, ao sul. As fontes variam ao explicar a medida por segurança, congestionamento ou risco de incêndio, mas a consequência urbana foi decisiva: o centro comercial se fortaleceu fora das muralhas.
Harbiyya cresceu ao norte e noroeste, com comunidades militares e residenciais, entre elas apoiadores corassânidas dos abássidas. Na margem oriental, Rusafa desenvolveu-se em torno do estabelecimento associado a al-Mahdi, filho e herdeiro de al-Mansur. Palácios e jardins acompanharam o rio; o próprio al-Mansur usou al-Khuld, perto da Porta do Coração e do Tigre. Pontes, canais e barcos uniam bairros cuja importância mudava com incêndios, enchentes, guerras civis e preferências da corte.
Assim, “Bagdá” podia significar o círculo, os bairros ocidentais, a cidade oriental ou toda a aglomeração. Nenhum número populacional é útil sem data e limites definidos.
Bagdá realmente chegou a um milhão de habitantes?
Bagdá foi sem dúvida uma das maiores cidades de sua época, mas nenhum censo abássida seguro fornece o total metropolitano. Estimativas modernas usam dimensões descritas, densidade habitacional, capacidade de abastecimento, quantidade de banhos ou mesquitas e comparações com outras cidades pré-industriais. Cada método depende de suposições incertas, enquanto números medievais podem ser retóricos ou cobrir áreas distintas.
O popular “um milhão” deve ser identificado como estimativa, não medição. Se estiver próximo da realidade, refere-se à metrópole ampliada em fase posterior, nunca apenas ao círculo de 762. A conclusão segura é que população e economia ultrapassaram largamente o recinto palaciano original.
Como conhecemos o plano se a Cidade Redonda desapareceu?
O recinto de al-Mansur não sobrevive na superfície, e a ocupação densa da Bagdá moderna torna escavações sistemáticas extremamente difíceis. A evidência principal é literária. Al-Ya‘qubi escreveu no fim do século IX uma descrição topográfica influente. Al-Khatib al-Baghdadi preservou tradições adicionais no século XI. Al-Tabari e outros historiadores narraram fundação e eventos políticos. Eram autores informados, mas não produziram um levantamento arquitetônico contemporâneo para leitores modernos.
Em 1900, Guy Le Strange organizou notícias árabes e persas em mapas ainda muito reproduzidos. Depois, Ernst Herzfeld, K. A. C. Creswell, Jacob Lassner e outros propuseram leituras diferentes de muralhas, pátios, salas sobre as portas, arcadas e complexo central. Um estudo arquitetônico de 2016 mostra que mesmo desenhos muito precisos divergem entre si e de partes das descrições.
Isso não torna a Cidade Redonda imaginária; exige graus de certeza. Fundador, data de 762, nome oficial, conceito circular, quatro portas e centro palácio-mesquita são bem sustentados. Perfis exatos das muralhas, cada planta e um diâmetro métrico são menos seguros. Legendas responsáveis devem dizer “reconstrução baseada em descrições medievais”.
Madinat al-Salam, Bagdá e a evidência das moedas
Os nomes não se dividem entre “verdadeiro” e “falso”. Madinat al-Salam era a denominação oficial e ideológica da fundação e da casa da moeda. Bagdá era o topônimo local mais antigo que dominou o uso geográfico. Um dirrã de prata de al-Mansur, datado de 150 AH / 767 e preservado no British Museum, declara ter sido cunhado em Madinat al-Salam. É evidência material direta do nome apenas alguns anos após o começo das obras.
A moeda não prova a geometria das muralhas, mas fixa governante, data, casa da moeda e nome. Esse é um exemplo de método histórico: objetos e textos devem testar as afirmações que de fato são capazes de verificar.
A Idade de Ouro começou em 762?
A fundação criou condições depois favoráveis ao estudo: patrocínio concentrado, receita tributária, mercados de livros, fabricação de papel, comunidades multilíngues e rotas de longa distância. Mas álgebra, medicina, astronomia e o movimento de tradução não surgiram prontos com os primeiros alicerces. Desenvolveram-se sob califas posteriores graças a tradutores, médicos, matemáticos, copistas, mercadores e patronos que atuavam em muitos ambientes.
A Casa da Sabedoria sofre especialmente com anacronismos. Estudos recentes a descrevem com mais cautela como biblioteca ou coleção califal abássida, de nome e funções variáveis, não uma universidade moderna com faculdades permanentes onde todos os estudiosos famosos trabalharam. Harun al-Rashid e al-Ma’mun pertencem ao contexto posterior. Relacionar sua época a Bagdá é correto; instalar uma academia plenamente formada no palácio de al-Mansur em 762 não é.
Depois dos primeiros abássidas: 836, 892 e 1258
Em 836, o califa al-Mu‘tasim estabeleceu a corte em Samarra, cerca de 125 quilômetros ao norte no Tigre. Oito califas residiram ali até 892. Bagdá não deixou de ser grande centro comercial, religioso e intelectual e voltou a sediar a corte. As extensas ruínas de Samarra são valiosas justamente porque preservam evidência que a primeira Bagdá perdeu.
A cidade continuou mudando sob poderes abássida, búida e seljúcida. Em 1258, o exército mongol de Hülegü tomou Bagdá, matou o califa e causou destruição e enorme perda de vidas. O califado abássida de Bagdá terminou, mas nem todo edifício, livro ou habitante desapareceu, e o saber do mundo islâmico nunca dependeu de uma única cidade. Bagdá permaneceu habitada e foi reconstruída.
Afirmações populares diante das evidências
| Afirmação | Formulação mais bem sustentada |
|---|---|
| “Harun al-Rashid fundou Bagdá.” | Al-Mansur fundou a capital em 762; Harun governou depois, entre 786 e 809. |
| “Não havia nada antes de 762.” | O topônimo e um assentamento de mercado são anteriores ao projeto abássida. |
| “Toda Bagdá medieval era um círculo perfeito.” | O círculo era o núcleo da corte; a metrópole logo se espalhou por vários bairros. |
| “O mapa preservado veio de escavações.” | Os planos conhecidos são reconstruções modernas baseadas sobretudo em textos. |
| “Um milhão de pessoas vivia dentro do círculo.” | Não há censo seguro; cifras altas tratam da metrópole posterior e ampliada. |
| “A Casa da Sabedoria abriu em 762.” | Coleções e redes de tradução se desenvolveram depois; sua forma institucional é debatida. |
| “Os mongóis apagaram Bagdá para sempre.” | A conquista de 1258 foi catastrófica, mas a cidade sobreviveu e foi reconstruída. |
Perguntas frequentes
Quem fundou Bagdá?
O segundo califa abássida, Abu Ja‘far al-Mansur. Havia uma localidade anterior, mas seu projeto de 762 criou Madinat al-Salam e o núcleo da capital.
Em que ano Bagdá foi fundada?
As obras começaram em 145 AH / 762. O intervalo 762–766 costuma resumir a principal fase de construção, embora a metrópole tenha continuado a mudar por séculos.
Por que a cidade era circular?
A geometria concentrava a autoridade e controlava o acesso ao centro de palácio e mesquita. Estudam-se também precedentes iranianos e simbolismo cosmológico, mas não sobrevive um documento de projeto com uma explicação exclusiva.
Quais eram as quatro portas?
As portas de Kufa, Basra, al-Sham ou Síria, e Coração. Orientavam a capital para as principais regiões e estradas do mundo abássida.
É possível visitar hoje a Cidade Redonda?
Não como monumento em pé. O local está dentro da Bagdá moderna e o conjunto de muralhas e palácio de al-Mansur não sobrevive acima do solo.
Bagdá sempre foi a capital depois de 762?
Não. A corte residiu em Samarra de 836 a 892. Bagdá continuou importante e depois voltou a ser sede califal.
Qual é o principal legado urbano?
Não apenas o desenho circular. Bagdá reuniu administração imperial, transporte fluvial, mercados, populações diversas e posterior patrocínio intelectual em uma metrópole de alcance afro-eurasiático.
Continue pesquisando a Bagdá abássida
- A Revolução Abássida, 747–750: Como chegou ao poder a dinastia que fundou Bagdá.
- A Casa da Sabedoria: história e mitos: O que as fontes permitem afirmar sobre a biblioteca califal e as traduções.
- Al-Khwarizmi, álgebra e algoritmos: Um estudioso ligado ao patrocínio abássida do século IX.
- A queda de Bagdá em 1258: O cerco mongol, suas consequências e narrativas controversas.
- Barid: correio e inteligência abássida: Como ordens e informações circulavam pelo império.
- A fabricação de papel de Samarcanda a Bagdá: Materiais, oficinas e cultura do livro sem um mito de origem única.
- Idade de Ouro islâmica: cronologia documentada: Instituições e redes intelectuais desenvolvidas depois de 762.
- Cronologia da história islâmica: O contexto político mais amplo da fundação de Bagdá.
Fontes e o que cada uma demonstra
O artigo separa evidência material da época, descrições medievais posteriores e reconstruções acadêmicas modernas. Cada tipo de fonte responde a perguntas diferentes.
- Smarthistory: The founding of Baghdad: Síntese acessível da escolha do local, da descrição de al-Ya‘qubi, das quatro portas e do crescimento fora do círculo.
- Cambridge World History: Baghdad, an imperial foundation (762–836 CE): Estudo acadêmico da fundação palaciana e da metrópole em transformação entre 762 e 836.
- IRAQ: Images of Round Baghdad—an analysis of reconstructions: Análise arquitetônica que mostra por que as reconstruções modernas divergem em seus detalhes.
- Encyclopaedia Iranica: Baghdad before the Mongol invasion: Panorama da história abássida de Bagdá e de suas conexões iranianas e corassânidas.
- Encyclopaedia Iranica: Iraq in the late Sasanid and early Islamic eras: Evidência do topônimo anterior, do mercado pré-762 e do contexto iraquiano inicial.
- Encyclopaedia Iranica: Bazaar—organization and function: Fonte específica para a transferência dos mercados da Cidade Redonda para Karkh.
- Encyclopaedia Iranica: Abu Sahl Nawbakht: Verbete sobre Nawbakht, Masha’allah e a escolha astrológica relatada para julho de 762.
- The Metropolitan Museum of Art: The Art of the Abbasid Period: Panorama museológico da mudança abássida para o Iraque, da fundação e do período de Samarra.
- British Museum: al-Mansur dirham minted at Madinat al-Salam in 767: Registro de um dirrã de prata de 767 cunhado em Madinat al-Salam; evidência material do nome oficial.
- UNESCO World Heritage Centre: Samarra Archaeological City nomination dossier: Comparação com a cidade abássida preservada de Samarra e a residência da corte entre 836 e 892.
- Routledge: The Abbasid House of Wisdom—Between Myth and Reality: Estudo recente que confronta a imagem popular da Casa da Sabedoria com as fontes históricas.





