Shahnameh de Shah Tahmasp: Criando uma Obra-Prima Safávida

Shahnameh de Shah Tahmasp: Criando uma Obra-Prima Safávida

Muslim Post Editorial Desk@muslimpost

A coordenação de caligrafia e pintura nos ateliês reais para o Shahnameh de Shah Tahmasp e a posterior dispersão das suas páginas ilustres.

O Shahnama feito para o xá Tahmasp é uma cópia monumental safávida do século XVI do Livro dos Reis, a epopeia persa de Ferdowsi. Produzido em Tabriz ao longo de mais de uma década, combinava originalmente 759 fólios de versos persas com 258 pinturas, papel salpicado de ouro, iluminuras e encadernação. A identidade exata do patrono inicial é debatida, mas o projeto floresceu sob Tahmasp I. O códice completo viajou para a corte otomana como presente diplomático em 1568, recebeu anotações otomanas, entrou nas coleções Rothschild e Houghton e foi desmembrado no século XX. Hoje, as pinturas e folhas de texto estão repartidas entre Teerão, museus e coleções particulares. Uma página destacada é, portanto, simultaneamente uma obra de arte safávida e evidência de um manuscrito cuja sequência foi materialmente interrompida.

Factos essenciais sobre o manuscrito

  • Texto: o Shahnama de Ferdowsi, uma epopeia dos reis lendários e históricos do Irão concluída por volta de 1010.
  • Produção: Tabriz, principalmente das décadas de 1520 a 1530, embora alguns estudos prolonguem o trabalho até ao início dos anos 1540.
  • Dimensão: 759 fólios e 258 pinturas no manuscrito completo, com grandes folhas de aproximadamente 47 por 32 centímetros.
  • Patrocínio: possivelmente iniciado sob o xá Ismail I e continuado como projeto marcante da corte do seu filho, o xá Tahmasp I.
  • Transferência diplomática: oferecido ao sultão otomano Selim II por uma embaixada safávida que chegou a Edirne em 21 de fevereiro de 1568.
  • Estado atual: disperso; 78 pinturas encontram-se no Metropolitan Museum of Art, 118 permaneceram com o bloco de texto devolvido a Teerão em 1994 e outros fólios estão em coleções públicas e privadas.

O que é o Shahnama e o que esta cópia não é

O poema de Ferdowsi narra uma vasta história da realeza iraniana, desde a criação e os governantes lendários, passando pelos ciclos heroicos, até à queda da dinastia sassânida. Existiu em muitos manuscritos, recitações e edições posteriores. «O Shahnama do xá Tahmasp» designa uma cópia ilustrada específica, também chamada Shahnama-yi Shahi ou Shahnama Houghton. Não é o manuscrito original de Ferdowsi, e uma página de outro Shahnama não lhe pertence apenas porque o episódio ou o estilo da pintura parecem semelhantes.

A identificação depende da codicologia e da proveniência: dimensões do fólio, papel e pautado, escrita persa, posição do texto, técnica pictórica, numeração antiga dos fólios, inscrições e cadeia de propriedade documentada. Os catálogos museológicos descrevem uma folha destacada como «do Shahnama do xá Tahmasp» apenas depois de relacionarem essas características com o códice disperso. As imagens de pesquisa omitem frequentemente o reto, o verso e o texto em torno da pintura, mas essas partes podem ser cruciais para localizar a folha na epopeia.

Quando começou a produção e por que o patrono permanece em debate

O manuscrito é geralmente datado da década de 1520 até pelo menos à de 1530. Uma proposta identifica o xá Ismail I, fundador da dinastia safávida, como patrono inicial antes da sua morte em 1524; outra destaca Tahmasp, que lhe sucedeu ainda criança e se envolveu profundamente nas artes do livro. As evidências não preservam um contrato simples de encomenda com uma única data de início. Os registos museológicos utilizam, por isso, formulações cuidadosas como «possivelmente iniciado sob Ismail» e «concluído para Tahmasp».

Um fólio pintado, o número 516, apresenta a data de 934 da Hégira, equivalente a 1527–28 da era comum. Ela ancora cronologicamente essa folha, não a conclusão dos 759 fólios. Os agrupamentos estilísticos e as carreiras dos artistas participantes mostram que o projeto atravessou mudanças de pessoal e diferentes fases. As afirmações de que todo o manuscrito foi «feito em 1527» confundem a única pintura datada com uma campanha de produção que durou mais de uma década.

Uma oficina régia produziu o livro coletivamente

Um manuscrito desta dimensão exigia calígrafos, pintores, desenhadores, iluminadores, especialistas na aplicação de salpicos de ouro, especialistas em papel, traçadores de margens e encadernadores. Os estudos modernos identificam três supervisores sucessivos e artistas associados a diferentes tradições regionais. Sultan Muhammad, Mir Musavvir, Aqa Mirak e Dust Muhammad estão entre os nomes mais conhecidos, mas a prática da oficina não exigia que cada participante assinasse todas as tarefas. Uma composição podia passar pelas etapas de conceção, desenho, cor e acabamento.

A atribuição é, consequentemente, um argumento baseado no estilo, em notas documentais e na comparação, e não uma folha salarial completa. A história das artes do livro safávidas da UNESCO observa que apenas duas pinturas têm notas antigas de atribuição que nomeiam artistas, enquanto a maioria das identificações foi reconstruída pelos investigadores. «Atribuído a Sultan Muhammad» não é o mesmo que «assinado por Sultan Muhammad». Essa distinção preserva tanto o caráter colaborativo do objeto como a incerteza sobre as mãos individuais.

Como funcionavam em conjunto 759 fólios e 258 pinturas

As folhas eram grandes, escritas em requintada caligrafia nasta'liq e enquadradas por margens coloridas abundantemente salpicadas de ouro. As pinturas não formam uma série retangular uniforme. Cada composição relaciona-se de modo diferente com as colunas de texto: algumas permanecem delimitadas pelas áreas escritas, enquanto outras interrompem colunas ou se expandem para as margens. Aguarela opaca, tinta, ouro e por vezes prata criavam superfícies em camadas cuja escala e efeitos de reflexão são difíceis de reproduzir num ecrã de telemóvel.

O número 258 refere-se às pinturas, não a 258 páginas no livro inteiro. Um fólio tem duas faces, reto e verso, e pode conter apenas texto, texto com ilustração ou cabeçalhos decorados. As descrições museológicas contam por vezes fólios ilustrados, enquanto os resumos das coleções contam pinturas, o que pode produzir discrepâncias aparentes, como 76 ou 77 fólios doados contendo 78 pinturas. Um inventário fiável regista a unidade contada.

As pinturas interpretam o Irão lendário através da cultura visual safávida

As imagens não tentam uma reconstrução arqueológica dos reis míticos do Irão. Heróis e cortesãos aparecem com vestuário, armaduras, arquitetura, jardins e ambientes cortesãos do século XVI. Essa tradução visual tornava o passado de Ferdowsi compreensível para os observadores safávidas e ligava a realeza ideal, a cerimónia, o conflito e a escolha moral ao mundo da corte de Tahmasp. É uma evidência da cultura material safávida, além de uma interpretação do poema.

A paisagem é ativa, e não meramente decorativa. Rochas, árvores, animais, tendas e multidões estabelecem hierarquias, escondem ações ou orientam o olhar para um centro narrativo. O leitor deve primeiro identificar o episódio e os versos envolventes, perguntando depois o que o pintor selecionou, combinou ou alterou. Isolar a imagem do texto pode transformar uma cena interpretativa numa «miniatura persa» genérica e apagar a razão pela qual ocupava aquele lugar no livro.

A Corte de Gayumars mostra por que a atribuição exige evidências

A célebre Corte de Gayumars, atualmente no Museu Aga Khan, representa o primeiro rei entronizado num cenário montanhoso, rodeado de cortesãos, animais e vegetação minuciosamente observada. É atribuída a Sultan Muhammad, um importante pintor de Tabriz ligado à biblioteca régia e à educação artística de Tahmasp. A atribuição é muito influente, mas a formulação museológica continua a indicar que se trata de uma atribuição, e não de uma assinatura preservada na face da obra.

A página também demonstra por que as reproduções achatam o objeto. Figuras minúsculas, roupas com padrões e pormenores de ouro convidam à observação próxima, enquanto painéis de texto ligam a reunião cortesã à narrativa de Ferdowsi. A sua fama não deve transformá-la numa representação de todas as 258 pinturas. Diferentes fases da oficina revelam hábitos de composição e linhagens artísticas distintos, incluindo o encontro das tradições de Herat e Tabriz.

A embaixada de 1568 transformou o códice num objeto diplomático

Relatos otomanos e europeus contemporâneos situam a chegada da embaixada safávida a Edirne em 21 de fevereiro de 1568. A delegação trouxe 34 camelos carregados de presentes para o sultão Selim II. Um relato otomano descreve explicitamente um suntuoso Shahnama feito em nome do xá Tahmasp, embora registe 259 miniaturas em vez das 258 aceites. Este inventário quase contemporâneo constitui evidência mais sólida do que uma história romântica posterior sobre a escolha do presente.

O presente marcou as relações entre impérios muçulmanos rivais depois da subida de Selim ao trono. Podia exibir os recursos safávidas, a autoridade literária e a excelência das oficinas, ao mesmo tempo que cumpria a etiqueta diplomática. As motivações exatas permanecem abertas à interpretação. É mais seguro dizer que o manuscrito funcionou como presente diplomático régio do que afirmar, sem documentação direta, que era um pedido de desculpas, um tratado de paz ou uma rejeição pessoal da pintura.

Os leitores otomanos acrescentaram outra camada por volta de 1800

O manuscrito permaneceu durante séculos na biblioteca do Palácio de Topkapi. Por volta de 1800, foram inseridos no códice descrições e comentários em turco otomano sobre as pinturas. Esses acrescentos mostram leitura continuada e interesse de conservação e estudo, em vez de armazenamento passivo. Também fazem do objeto uma história de receção: versos persas e imagens safávidas foram interpretados num ambiente cortesão otomano posterior.

Uma folha inserida não integra a produção original do século XVI apenas porque viajou dentro da mesma encadernação. Conservadores e catalogadores distinguem papel, mão, língua e data para não confundirem a receção posterior com a oficina safávida. A reconstrução digital deve preservar essa história em camadas, identificando os acrescentos em vez de os remover silenciosamente ou apresentar todas as folhas como contemporâneas.

Como o manuscrito completo entrou nas coleções modernas

Em 1903, o códice já estava na coleção de Edmond de Rothschild. Um descendente vendeu-o em 1959 a Arthur A. Houghton Jr. Em 1970, Houghton ofereceu fólios ilustrados ao Metropolitan Museum no seu centenário; os relatos institucionais descrevem 78 pinturas em 76 ou 77 fólios ilustrados, conforme a forma de contar as folhas. Páginas individuais entraram depois em leilões, acervos de comerciantes, museus e coleções particulares.

Esta história criou o nome moderno «Shahnama Houghton», mas também assinala o momento em que um livro encadernado se tornou um mercado de obras individuais. Destacar as folhas facilitou a exposição e a coleção de pinturas específicas. Cortou sequências entre texto e imagem, ligações físicas entre folhas conjugadas e o ritmo de virar as páginas. A proveniência posterior a 1959 não é, portanto, um apêndice opcional: explica por que uma folha está agora em Nova Iorque, Toronto, Washington, Berlim ou noutra coleção.

A dispersão foi uma intervenção, não uma mudança neutra de formato

Chamar «miniaturas» às páginas pode incentivar os observadores a tratá-las como imagens independentes que, por acaso, estiveram encadernadas. Foram concebidas dentro de um códice. A remoção dos fólios alterou as relações entre frentes e versos, ilustrações e episódios adjacentes, aberturas decoradas e o peso acumulado das páginas. Também permitiu que hierarquias de preço e autoria reorganizassem um manuscrito colaborativo em torno de algumas pinturas famosas.

Em 1994, o bloco de texto sobrevivente, a encadernação e as 118 pinturas restantes foram trocados com o Museu de Arte Contemporânea de Teerão por Mulher III, de Willem de Kooning. Essa transferência devolveu ao Irão o maior conjunto sobrevivente, mas não reuniu as folhas já distribuídas. São, portanto, falsas as afirmações de que «todo o Shahnama está de volta a Teerão». O conjunto de Teerão e os fólios dispersos constituem, em conjunto, a história material sobrevivente do manuscrito.

Como verificar um fólio destacado do xá Tahmasp

  1. Registe o número de inventário do museu ou da coleção, e não apenas uma legenda copiada de uma imagem.
  2. Identifique o episódio, o número do fólio, o reto ou verso e o texto persa em torno da pintura.
  3. Separe um nome assinado ou inscrito de uma atribuição estilística moderna.
  4. Confira medidas, materiais, escrita, pautado e tratamento das margens com os registos do códice.
  5. Trace a propriedade desde as etapas otomana, Rothschild e Houghton até ao detentor atual.
  6. Indique se uma contagem se refere a pinturas, fólios ilustrados, folhas ou páginas.

Estas verificações também evitam confusões com o Grande Shahnama Mongol, mais antigo, outras cópias régias safávidas e manuscritos posteriores que ilustram os mesmos episódios. Um registo credível do objeto deve ser suficientemente específico para que outro leitor consiga localizar a mesma folha física.

O que a reconstrução digital pode e não pode restaurar

Uma sequência digital partilhada pode reunir imagens de alta resolução, posições do texto, números de fólios e históricos de catálogo de diferentes coleções. Permite comparar fases da oficina e acompanhar a narrativa de Ferdowsi com maior coerência do que uma galeria de obras-primas desligadas. Também pode revelar folhas em falta e numerações antigas inconsistentes, em vez de fingir que o registo está completo.

Um ecrã não consegue restaurar a estrutura original da encadernação, a espessura, a escala, a reflexão dos metais, a textura dos pigmentos ou o ritmo exato de virar páginas. Uma montagem na Internet também não apaga as histórias jurídicas e comerciais dos objetos destacados. A melhor reconstrução digital é transparente quanto às fontes das imagens, à calibração de cor, aos recortes e às lacunas. É um modelo de investigação do códice, não o próprio códice.

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Fontes

  1. Metropolitan Museum of Art, O Shahnama do xá Tahmasp — A história do manuscrito apresentada pelo museu fornece os 759 fólios, as 258 pinturas, as evidências da embaixada de 1568, os acrescentos otomanos e as 78 pinturas do seu próprio acervo.
  2. Museu Aga Khan, A morte de Zahhak, do Shahnameh do xá Tahmasp — O registo do objeto apresenta o debate sobre a encomenda, as fases da oficina, o desmembramento de 1970 e a troca, em 1994, do bloco de texto restante com 118 ilustrações.
  3. Museu Aga Khan, A corte de Kayumars — Este fólio catalogado sustenta a discussão da atribuição a Sultan Muhammad, do contexto da biblioteca régia e da necessidade de distinguir uma atribuição museológica de uma assinatura.
  4. Museu Nacional de Arte Asiática do Smithsonian, Faridun golpeia Zahhak — O registo do fólio destacado demonstra como se documentam reto, verso, escrita, dimensões, materiais, patrono e atribuição artística de uma folha física.
  5. Coleções Khalili, Dez fólios do Shahnama do xá Tahmasp — O registo da coleção explica os materiais de grande formato, o fólio 516 datado, a produção colaborativa, a diversidade estilística e o intervalo entre as décadas de 1520 e 1540.
  6. Museu Fitzwilliam, Qaran mata Barman — Este registo de fólio relaciona as contagens de 759 folhas e 258 imagens com o presente diplomático, a história de Topkapi e a dispersão do século XX.
  7. Museu de Arte Islâmica de Berlim, Uma pintura do Shahnameh — O artigo institucional descreve a oficina de Tabriz, a escrita nasta'liq, os pigmentos dispendiosos, a rede de artistas e a história régia e museológica posterior do manuscrito.
  8. Rotas da Seda da UNESCO, Artes do livro, pintura e caligrafia — O capítulo académico regista as 258 miniaturas, o grande formato, as margens salpicadas de ouro, o intervalo cronológico, as poucas notas antigas de atribuição e o regresso de 118 pinturas ao Irão em 1994.
  9. Museu Sem Fronteiras, Dez fólios do Shahnamah do xá Tahmasp — O registo que cruza coleções esclarece que os formatos independentes das pinturas exigiam coordenação entre escribas, pintores e responsáveis pelas margens, e resume a dispersão atual.